quarta-feira, 29 de junho de 2011

A MINHA BAÍA

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Aqui, na areia,
Sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrentes
obre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas,
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num vôo magistral em torno do mundo
desenhando na areia
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na mais bela de todas as lições:



HUMANIDADE




Faz hoje, precisamente, 37 anos que vi S. Tomé, a ilha onde nasci (a bordo de um pequeno Fokker Friendship - imagino que fosse um Fokker F-27-300M Friendship, holandês e construído a partir de 1960) e a baía (Baía de Ana Chaves) que observei todos os dias do alto do muro em frente à "minha" casa (hoje Rua do Município - antes nem lhe imagino o nome), enquanto passavam as sanguês para o mercado, mascando gomos de cola.

Para além do calor húmido, da areia preta "daquela" praia, da imponência do Cão Grande, da beleza da Lagoa Azul e do ressoar do "Tchiloli" e do "Danço Congo", ainda sinto no palato o travo inconfundível do Safu (de que espero cumprir-se a crença ...), da Cola, do peixe fumado, dos abacates e das mangas e das mil e uma variedades de banana, ...



A flor do maracujá (flor-da-paixão ou Passiflora caerulea L.) da imagem inicial é uma simples homenagem a essa memória que perdurou, até hoje, no tempo.



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Foto: F.Reis(c)2011
Local: Bendafé, no dia de S. João
Poema: "Em torno da minha baía" de Alda Espírito Santo in "É nosso o solo sagrado da terra",1978, Lisboa, Ulmeiro. cit. in POESIA AFRICANA DE EXPRESSÃO PORTUGUESA

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2 comentários:

Sara disse...

As memórias são mecanismos poderosos, accionados por "pistas" que, por vezes, nem conscientes são. Felizmente, estas que aqui traz são conscientes, vívidas e significativas. O nosso património vital não tem preço.
Gostei muito!

Um abraço e um excelente fim de semana!

Fernando Reis disse...

É curioso o nosso cérebro ... o que ele guarda, sei lá em que gaveta ou até quando ...

Concordo completamente sobre o preço do nosso património vital.

Abraço e uma melhor semana.

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